sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010


E não deixo meus brinquedos, não porque não quero, mas porque não
posso. É que eles precisam de alguém que os abrace. E eu também. Acho
que esqueci como se vira gente grande. Preciso sair de mim pra brincar
lá fora, mas tem uns dias que só fico atrás da janela espiando nuvens
que gostam de brincar transformando-se em outras coisas. Um convite
pra pular a janela. Daí alguém me puxa pelo braço e diz com voz adulta
que já cresci. É quando tenho que usar a porta como saída. E vou
pra rua pra fazer o que toda gente quando cresce faz. Mas levo
agarrados ao peito meus brinquedos de menina. Porque eles precisam de
abraço quentinho e porque só eles conseguem me mostrar a porta de saída
quando aqui dentro, o negócio ta pegando fogo.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010




Eu me sinto às vezes tão frágil, queria me debruçar em alguém, em alguma coisa. Alguma segurança. Invento estorinhas para mim mesmo, o tempo todo, me conformo, me dou força. Mas a sensação de estar sozinho não me larga. Algumas paranóias, mas nada de grave. O que incomoda é esta fragilidade, essa aceitação, esse contentar-se com quase nada. Estou todo sensível, as coisas me comovem.

.Caio Fernando Abreu