quarta-feira, 28 de setembro de 2011


Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.



Caio Fernando Abreu

terça-feira, 27 de setembro de 2011

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO (TCC)


Se você já foi um universitário ou tem um filho na universidade, entende o valor da temida sigla TCC.

TCC é tudo. O resto é nada. Você é nada, uma ameba, um protozoário perto de um TCC.

O Trabalho de Conclusão do Curso é a greve de existir do jovem. Faz o vestibular parecer um feriado.

O TCC é a TPM do Ensino Superior, a cadeira derretida do inferno, a desculpa para não realizar mais nada.

Não se vive com um TCC. A monografia final da graduação é a fita azul que enrola o canudo, é a provação derradeira para emoldurar o diploma, é o que separa o capelo do céu.

Na teoria, a tarefa se exibe fácil. Arrumar um tema, depois juntar material de pesquisa, atender aos conselhos de um professor orientador e, por fim, escrever 60 páginas. O fim nunca se encerra. No momento de pôr as ideias na tela, o último semestre demora mais três e o pânico devora as letras do teclado como um vírus.

O TCC é o Gulag do adolescente, o exílio solar, a solidão noturna. É o bilhete de suicídio prolongado em livro. É o mesmo que receber simultaneamente a notícia de gravidez e esterilidade.

Não se é humano com o TCC. É um crime se divertir, arejar a cabeça, brincar durante o período. A expectativa de solucionar um problema da carreira a partir de um texto acadêmico torna-se o problema. O futuro ganha o sinônimo de PRAZO ESGOTADO. A esperança tem o subtítulo ANOTAR ALGUMA COISA, QUALQUER COISA, POR FAVOR, ME AJUDA. O sujeito não tem mais passado, mas BIBLIOGRAFIA. Não existe lembrança, e sim FONTE.

Muito fácil reconhecer o graduando na rua. Andará vagaroso, vidrado nos cadarços soltos do próprio tênis, rosto maltratado, remela nos olhos, roupas sobrepostas de quem se acordou agora e pegou as primeiras peças pela frente. Demonstrará irritação e uma dificuldade de entender a lógica do idioma. É um poço de culpa, ou porque não dormiu para estudar, ou porque dormiu e não estudou.

Algumas respostas básicas de um universitário redigindo o TCC:

Você namora? – Não posso agora, estou preocupado com o TCC.
Vamos tomar um café no fim de tarde e pôr o papo em dia? – Não dá, tenho que fazer o TCC.
Que tal Green Valley no domingo? – Nem pensar, estou com o TCC parado.
Topa churrasco de noite? – Nunca, não avancei no TCC.
Um cineminha hoje, para descontrair um pouco? – Desculpa, estou atrasado para o meu TCC.
Onde você está? – Tentando achar uma posição confortável para escrever meu TCC.
Você leu a crônica de Carpinejar em Zero Hora? – Não, só leio o que interessa ao meu TCC.



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 27/09/2011

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Não deixe que ele seja sua asa, no máximo um motivo para voar. Asas não nascem de novo, motivos sim.

Caio Fernando Abreu

sábado, 24 de setembro de 2011


Seria apenas mais uma história, se não tivesse tocado a alma.

Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 21 de setembro de 2011


Era quase desanimador porque parecia que, quando o stress e a loucura eram eliminados do meu quotidiano, pouco ficava a que me agarrar.

Charles Bukowski
Não é muito difícil adivinhar: todas essas coisas que passam, que deixamos de ter por um triz e que são perdidas para a eternidade… Todas essas palavras que deveríamos ter dito, esses gestos que deveríamos ter feito, esses kairós fulgurantes que um dia surgiram, que não soubemos aproveitar e se afundaram para sempre no nada… O fracasso por um triz…

- Muriel Barbery

terça-feira, 20 de setembro de 2011


Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia.

Caio Fernando Abreu
Penso em você principalmente como a minha possibilidade de paz — a única que pintou até agora, nesta minha vida de retinas fatigadas.

Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Quero

''Quero não ter nenhuma condescendência com o tédio, não ser forçada a aceitá-lo na minha rotina como um inquilino inevitável. A cada manhã, exijo ao menos a expectativa de uma surpresa, quer ela aconteça ou não. Expectativa, por si só, já é um entusiasmo. Quero que o fato de ter uma vida prática e sensata não me roube o direito ao desatino. Que eu nunca aceite a idéia de que a maturidade exige um certo conformismo. Que eu não tenha medo nem vergonha de ainda desejar. Quero uma primeira vez outra vez. Um primeiro beijo em alguém que ainda não conheço, uma primeira caminhada por uma nova cidade, uma primeira estréia em algo que nunca fiz, quero seguir desfazendo as virgindades que ainda carrego, quero ter sensações inéditas até o fim dos meus dias. Quero ventilação, não morrer um pouquinho a cada dia sufocada em obrigações e sem exigências de ser a melhor mãe do mundo, a melhor esposa do mundo, a melhor qualquer coisa. Gostaria de me reconciliar com meus defeitos e fraquezas, arejar minha biografia, deixar que vazem algumas idéias minhas que não são muito abençoáveis. Queria não me sentir tão responsável sobre o que acontece ao meu redor. Compreender e aceitar que não tenho controle nenhum sobre as emoções dos outros, sobre suas escolhas, sobre as coisas que dão errado e também sobre as que dão certo. Me permitir ser um pouco insignificante. E na minha insignificância, poder acordar um dia mais tarde sem dar explicação, conversar com estranhos, me divertir fazendo coisas que nunca imaginei, deixar de ser tão misteriosa pra mim mesma, me conectar com as minhas outras possibilidades de existir. O que eu quero mais? Me escutar e obedecer o meu lado mais transgressor, menos comportadinho, menos refém de reuniões familiares, bolos de aniversário e despertadores na segunda-feira de manhã. E também quero mais tempo livre. E mais abraços. Pois é, ninguém está satisfeito. Ainda bem.''

Martha Medeiros

segunda-feira, 12 de setembro de 2011


''Vai doer tanto, menina. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa pra te aconchegar ao meio seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha.''

E sim, você consegue aconchegar minha tristeza nessa sua linda alma brasileira, meio dramática, meio dolorosa, extremamente chorosa, mas de uma inefável doçura.
Eu acredito em você, só duvido de vez enquanto, mas sim. Eu acredito em você, vai passar, mesmo que dure uma eternidade.

...
''Cuidado com as ilusões, mocinha, profundas e enganosas feito o mar. Engole teu coração...
e te ama por dentro.''

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

“E me dá uma saudade irracional de você. Uma vontade de chegar perto, de só chegar perto, te olhar sem dizer nada, talvez recitar livros, quem sabe só olhar estrelas… dizer que te considero - pode ser por mais um mês, por mais um ano, ou quem sabe por uma vida - e que hoje, só por hoje ou a partir de hoje (de ontem, de sempre e de nunca), é sincero.”

- Caio Fernando Abreu.

sábado, 3 de setembro de 2011


Nunca disse que era a pessoa de mais fácil convivência, mas estou longe de ser das mais difíceis.
Nunca disse que era perfeita, por isso mesmo, tento aceitar o defeito dos outros; no entanto, tudo tem um certo limite.
Nunca quis que as pessoas descobrissem tão facilmente meus sentimentos, mas é humanamente impossível ficar o tempo inteiro escondendo-se atrás de máscaras.

Já me disseram que sou uma mulher de personalidade forte. Sabe por que isso? Justamente por ser exatamente como eu sou, com meus defeitos e minhas qualidades, por não medir palavras quando acho que algo deve, de fato, ser dito. Prefiro pecar pelo excesso do que pela ausência, prefiro errar dizendo o que tem de ser dito, do que calar e me fazer de desentendida.

“Me aceito impuro, me gosto com pecados, e há muito me perdoei”.

Martha Medeiros