quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Fica um pouco de mim num bilhete perdido propositalmente embaixo do travesseiro dele, na rubrica daquele memorando, no ritual passo-a-passo do perfume antes de sair (atrás das orelhas, nos pulsos, uma borrifada no colo e pronto: a rua que esteja pronta pra mim), no passo apressado pelas ruas ainda cedo, cor do esmalte escolhido, voz no telefone, nessas pequenas ordens cotidianas e comportamentos singularmente estranhos de cada um de nós. É simples que alguma coisa soe estranha durante pensamentos aleatórios no meio do dia: se o cabelo não colabora, a roupa parecia boa antes de sair de casa, mas na verdade fora mal escolhida para a ocasião, começa a chover e guarda-chuva é apenas um desejo profundo - assim como tomar café, ler um livro, dormir uma horinha ou todas essas coisas que repicam leveza na existências humana. Mas nada funciona se cada uma dessas pequenas coisas estiverem alinhadas, os 98% de êxito são tão pouco para os outros 2% que podem ser uma mensagem com elogio, promoção no trabalho, aquela proposta que se sonhou por meses, uma viagem relâmpago - sonhamos alto, talvez. Queremos muito e possuímos uma insatisfação feroz, atenta, vivinha da Silva. Esmiuçamos situações, revemos mentalmente conversas, ensaiamos futuras falas, dizemos frases que querem dizer outras palavras, que na verdade, tem outros sentidos. Um "mais" esquecido depois do "eu te amo" e o surto de desespero e insegurança tem uma presa fácil. A falta de um elogio quando a roupa é nova, o corte de cabelo a estreia da semana ou o feedback de um presente, carta, bilhete, mesmo que tardio ficam tão grudados na nossa mente como um post-it paranoico quanto aquela ofensa em briga irracional, já falsamente superada. Se somos o casaco descombinado para casar bem com o sapato, o coque mal feito de propósito, um abraço apertado na cozinha, o silêncio contido de quem precisa se expressar e não sabe como, o choro soluçante de quem desaprendeu a viver uma vida que funcione, a cara amassada de acordar, tatuagem escondida em lugar estratégica, jeitinho de beber na xícara, a estabanação ambulante; o olhar fundo de quando o desejo de uma conexão maior ainda, as frases marcantes que são todinhas nossas, gírias improvisadas, alimentos que detestamos, as histórias da infância, todas essas particularidades assumidas que nos fazem além de autoconhecedoras próprias, de identidade; humanas. Pensa bem quem para por alguns minutos e se permite flutuar como o outro: muito mais que jóias caras, vida de luxo, carro importado, bíceps definido ou um cara de estilo do lado, cuidem dos nossos detalhes. Alimentem nossos sonhos com sinceras - mas ponderadas - opiniões, bilhetes dentro da mala, eu te amos mais gostosos de se escutar ao pé do ouvido para dormir levinha, suave, em paz. Permitam-se navegar nesses nossos baús de memórias lotadas daquilo que a gente planeja esperando que alguém venha com uma lupa paralisadora e, veja. Notem a lingerie, o cuidado das palavras postas na mesa, as unhas e depilação em dia, o que ela diz e prefere não falar. Não precisa ser sempre: sendo de vez em quando a felicidade começa a existir, se torna fácil manter aceso um desejo de melhoria constante (que movimenta o mundo, as relações humanas, nós todos e quem vem a seguir).
Essa não é uma história de estrangeirismos, amores clandestinos e nem mesmo de fugas para fora de si. Era uma vez uma menina que se importava demais. Mais ou menos assim: queria, ia atrás, conseguia e depois, mesmo com a conquista na palma das mãos, vestida no corpo, carimbada no coração, que nada: insegura, mãos suando e uma importância descabida a cada pequeno sumiço, tropeço, falta, fala. Frieza? Aqui, nesse pequeno pedaço de carne, sangue, órgãos, veias, fios e sensações, inexiste. Era um importar tão apegado já a personalidade da criatura que, sendo objeto de afeto da mesma, ficava fácil sentir um pouco de sufoco por entre tão carinho, dengo, preocupação, necessidade por parte dessa mulher que parecia criança, imensurável o apego. Radicalista até mesmo, tão grande a importância de quem figurava no seu altar, trancafiado às sete chaves do íntimo mais lustroso, por entre as preocupações mais aflitas, solitária num desprestígio único - quis ser dona de todas as razões, verdades absolutas e ansiedades de suar mãos, tremer pernas e embrulhar estômagos. Diziam: racionalize, garota. Suma. Vá pra longe. Não responda, não se importe, não queira, esqueça de cuidar. Só assim que os outros continuam vívidos e alertas, sensíveis e atentos: afim. Fez valer tanto o seu esforço em matutar nas riquezas sentimentais, ouviu muito a opinião alheia de todo mundo que pra ela, importava, e admitiu de cara lavada a falta de comodismo - era difícil disfarçar os impulsos (malignos, complicados, apressados e sempre errôneos), e então, ficou mais fácil admitir que se importava mesmo, talvez fosse louca, com certeza era um pouco paranoica e aflita. Mesmo quando via os outros largarem de mão, com pouca vontade e doação, sem espaço para respirar, exercitar o dorso reflexivo e conseguir demonstrar também o tal sentir, não conseguia distrair e ir a um shopping, assistir a filme sozinha ou comprar com certeza e sem arrependimento sozinha: enquanto sufocava todos e tudo que a ela tinha influência direta no dia, asfixiava a si mesma num masoquismo incompreensível a quem de fora desse mundo caótico estava. E foi uma vez essa moça que ligou desesperada mil e novecentas vezes, mandou mensagem porque a saudade apertou, quis ver e participar de tudo, leu horóscopo, iching, psicologia comportamental, fez salão completo, compras impensadas e teve uma cabecinha com um furo meio oco que só conseguia deixar entrar falta de atenção ao que deveria de fato importar - trabalho, faculdade, amizades, leituras obrigatórias, enfim - para se abduzir num planeta onde a imaginação, tão fértil, dava diariamente flores cheias de espinhos que a faziam ácida feito limão mesmo depois de um shot de Tequila. Sozinha, se sentia uma pequena princesa com algumas rosas, longe do mundo real onde tudo funciona bem e as pessoas reais menos ainda que sentem. Decidiu: acalmar a mania de cuidado, voltar toda essa força carinhosa, transgressora, importante para si mesma que o retorno era certeiro e quase imediato. De importada a flor, do caos à leveza, do peso, até ser considerada sorte, dádiva, alegria, alegria. Acordou.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

(...)É preciso entender que cada um se manifesta de maneira diferente diante daquilo que sente e que podemos nos posicionar e aceitar sem compreender, mas nos blindar de qualquer coisa que diminua nossa vibração energética ou atinja a nossa espiritualidade. Aceito estar vulnerável para o amor, para a entrega ao desconhecido, para o mergulho no pré-sentimento bom. Mas não admito que o Outro tenha poder para me ferir, pois conheço minha Força... E, no meu cotidiano, toda a minha ocupação está na minha vontade de ser melhor, estar feliz e poder estender a mão quando tiver algo a oferecer... Marla de Queiroz
Vem cá, no meu colo, minha criança. Vem que eu quero lhe contar um segredo. Quando a gente cresce, tem que continuar acreditando naqueles mundos de faz de conta, sabe? Porque o mundo de verdade - o que você vai conhecer conforme for crescendo - é triste, às vezes. Tem coisas e pessoas lindas e legais nele. Mas geralmente essas coisas e pessoas estão em lugares escondidos e até bem longe de nós. E somente as enxergaremos se tivermos olhos e corações treinados. Mas como se treina um coração? Vivendo e amando como se cada vez fosse a primeira e a última. Como alguém que quer muito aprender a andar de bicicleta e a vontade é maior do que o medo de cair. E você vai cair, amor. Mas dor se cura. Desde que você chore e tenha um colo para chorar.
Se um dia você adoecer de palavras, coisa que acontece com todo mundo, e ficar farta de ouvi‑las, de dizê‑las; se qualquer uma que escolher lhe parecer gasta, sem brilho, deficiente; se sentir náusea ao ouvir um “horrível” ou “divino” sobre qualquer assunto, não será com uma sopa de letras, claro, que vai se curar. Deve fazer o seguinte: cozinhar um prato de espaguete al dente e temperá‑lo com o molho mais simples — alho, azeite e pimenta vermelha. Sobre a massa já misturada a esses ingredientes, por mais que a etiqueta o condene, rale uma camada de queijo pecorino. Do lado direito do prato fundo cheio de espaguete assim temperado, ponha um livro aberto. Do lado esquerdo, ponha um livro aberto. À frente, um copo cheio de vinho tinto seco. Qualquer outra companhia não é recomendável. Vire ao acaso as páginas de ambos os livros, mas os dois deverão ser de poesia. Só os bons poetas nos curam do fastio de palavras. Só a comida simples e essencial nos cura da saturação da gula. Héctor Abad in “Livro de receitas para mulheres tristes”