Há muito fora do lugar, mais fora q dentro de mim,
ouso dizer
Por isso escarneço e solto o verbo
E tento escutar os gritos à minha volta
Principalmente os meus próprios gritos, q são sempre os mais ensurdecedores.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
A gente só quer se eximir da culpa
A gente, secretamente,
só pensa em si mesmo
A gente finge altruísmo,
mas é pra parecer melhor,
maior q o outro.
Que bicho estranho o bicho homem
Tentando se esquivar dos instintos
Animais, reais,
latentes instintos de sobrevivência
E filosofando pra parecer alado
pra ter aparência de ser superior
pra, no final das contas
se assemelhar a Deus
se sentir um pouco mais sagrado
se sentir maior
se, se, a si,
para si mesmo
Para ter o maior pedaço
de bolo, de reconhecimento
do que for, mas ter mais q o outro
[b]O Amor não
O Amor, e por isso é raro,
quer o bem do outro sem retorno
O Amor dá luz sem esperar de volta
Até porque dar luz ilumina imediatamente
e prescinde, por isso mesmo, de retorno
Quem dá luz é pq está iluminado
Quem ama mesmo é pq já foi amado
é porque é amor em si
Mas é muito difícil
pq, no final das contas,
Ate mesmo o amor
Tem suas esperanças
cobranças, expectativas,
seu: ''se sou amado,
o outro vai ceder por mim,
vai me dar a vez’’
Há muito amor verdadeiro
eu sei, recebo e dou
mas pouco dele permeia
as relações que tenho observado
Um quer algo do outro
quer pertencer e ser dono
quer ser o mais importante de todos, mesmo q pra um só
E ás vezes
quer ver o outro doer
pra só assim ter um mínimo
de sensação de ser realmente amado. [/b]
Nossa geração é sobrevivente
eu já dizia isso quando tinha 10 anos. Sobrevivemos aos pós-hippies, às separações dos nossos pais, às permanências
- que podem ser muito mais devastadoras q as separações -
Sobrevivemos ao bug do milênio,
ao ano 2000...
À tanta coisa sobrevivemos
que não se pode cobrar muito de corações, despedaçados, defeituosos, desamparados
e, por isso, somos egoístas pra cara%$@
Muito egoístas!
E se o outro não chega pros seus sonhos
vc descarta, vc diz q não serve,
resolve até pelo telefone se puder...
''...espera, a outra linha tá tocando, só um minutinho, te deixo na espera, já falo contigo...’’
Lembro o tempo q havia mais respeito
Foco
Hoje vc fala com 30 no msn e mais um no telefone, e não alimenta com 1/30 de atenção
cada um desses
Nossa época é a do ''se vira aí''
Do ''cada um com seus problemas''
Tenho um sonho surrealista recorrente
É uma rua colorida demais q vai ficando preto & branco
Tem um cadáver no passeio
e as pessoas passam por cima,
sentam no defunto, apagam cigarro nele, mas ninguém nota
Eu estou sentado do outro lado da rua, choro copiosamente, em desespero, grito, tento avisar, mas ninguém ouve
O mundo segue impassível
Meu desespero é enorme
e qdo acho q vou sucumbir
percebo q tb estou sentado
sobre um cadáver
e percebo tb, distante, algumas pessoas gritando e tentando me avisar...
Há muito fora do lugar, mais fora q dentro de mim,
ouso dizer
Por isso escarneço e solto o verbo
E tento escutar os gritos à minha volta
Principalmente os meus próprios gritos, q são sempre os mais ensurdecedores.
A gente, secretamente,
só pensa em si mesmo
A gente finge altruísmo,
mas é pra parecer melhor,
maior q o outro.
Que bicho estranho o bicho homem
Tentando se esquivar dos instintos
Animais, reais,
latentes instintos de sobrevivência
E filosofando pra parecer alado
pra ter aparência de ser superior
pra, no final das contas
se assemelhar a Deus
se sentir um pouco mais sagrado
se sentir maior
se, se, a si,
para si mesmo
Para ter o maior pedaço
de bolo, de reconhecimento
do que for, mas ter mais q o outro
[b]O Amor não
O Amor, e por isso é raro,
quer o bem do outro sem retorno
O Amor dá luz sem esperar de volta
Até porque dar luz ilumina imediatamente
e prescinde, por isso mesmo, de retorno
Quem dá luz é pq está iluminado
Quem ama mesmo é pq já foi amado
é porque é amor em si
Mas é muito difícil
pq, no final das contas,
Ate mesmo o amor
Tem suas esperanças
cobranças, expectativas,
seu: ''se sou amado,
o outro vai ceder por mim,
vai me dar a vez’’
Há muito amor verdadeiro
eu sei, recebo e dou
mas pouco dele permeia
as relações que tenho observado
Um quer algo do outro
quer pertencer e ser dono
quer ser o mais importante de todos, mesmo q pra um só
E ás vezes
quer ver o outro doer
pra só assim ter um mínimo
de sensação de ser realmente amado. [/b]
Nossa geração é sobrevivente
eu já dizia isso quando tinha 10 anos. Sobrevivemos aos pós-hippies, às separações dos nossos pais, às permanências
- que podem ser muito mais devastadoras q as separações -
Sobrevivemos ao bug do milênio,
ao ano 2000...
À tanta coisa sobrevivemos
que não se pode cobrar muito de corações, despedaçados, defeituosos, desamparados
e, por isso, somos egoístas pra cara%$@
Muito egoístas!
E se o outro não chega pros seus sonhos
vc descarta, vc diz q não serve,
resolve até pelo telefone se puder...
''...espera, a outra linha tá tocando, só um minutinho, te deixo na espera, já falo contigo...’’
Lembro o tempo q havia mais respeito
Foco
Hoje vc fala com 30 no msn e mais um no telefone, e não alimenta com 1/30 de atenção
cada um desses
Nossa época é a do ''se vira aí''
Do ''cada um com seus problemas''
Tenho um sonho surrealista recorrente
É uma rua colorida demais q vai ficando preto & branco
Tem um cadáver no passeio
e as pessoas passam por cima,
sentam no defunto, apagam cigarro nele, mas ninguém nota
Eu estou sentado do outro lado da rua, choro copiosamente, em desespero, grito, tento avisar, mas ninguém ouve
O mundo segue impassível
Meu desespero é enorme
e qdo acho q vou sucumbir
percebo q tb estou sentado
sobre um cadáver
e percebo tb, distante, algumas pessoas gritando e tentando me avisar...
Há muito fora do lugar, mais fora q dentro de mim,
ouso dizer
Por isso escarneço e solto o verbo
E tento escutar os gritos à minha volta
Principalmente os meus próprios gritos, q são sempre os mais ensurdecedores.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Agente se acostuma
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
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