segunda-feira, 14 de dezembro de 2009




As pessoas falam coisas, e por tras do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem, há o que são e nem sempre se mostra…” .

Caio Fernando Abreu in Morangos Mofados .

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Foi com imenso receio que lhe dei aquele abraço.

Queria que isso não tivesse acontecido, que esse momento não tivesse importância.

Que fosse apenas mais uma das centenas de milhares despedidas diárias que eu dava a ela.

Mas não, não foi. Foi o afago mais frio que ja recebera dela.

Mesmo assim, sentia uma parte de mim indo embora.

Um sentimento inominável tomava conta, vendo que eu nada podia fazer para impedi-la.

Queria essa parte de volta. E quero.

Afinal, um ser humano não vive incompleto.

Foi quando, por uma fração de segundo, tive a oportunidade de olhar em seus olhos, que vi, que calculei, que estimei, todas as horas, os minutos e os segundos que passamos juntos.

Cada riso que me fazia rir, que me animava, que causava uma explosão silenciosa. Enfim, que me causava felicidade.

Li também seus prantos que tanto me pesaram.

E os conselhos que recebi.

Os conselhos que dei. Sempre narrados em terceira pessoa, para que, de um modo indireto, o outro percebesse que aquilo era apenas um jeito diferente de dizer o quanto éramos importantes um para o outro.

O quanto tínhamos uma parte de nós interligada.

O quanto eu precisava dela. Enfim.

Vi também um sorriso que não era sorriso. Era apenas um modo cordial de dizer adeus.

Era a tradução de "nos vemos em breve" na linguagem do silêncio.

Tudo isso ocorreu-me enquanto seus braços estavam envoltos aos meus.

E eu me sentia tão impotente, tão incapaz, tão dependente toda vez que me abraçava.

Naquele momento, não poderia ter sido diferente.

Com uma intensidade infinitamente maior.

Era incrível como conseguíamos ficar horas conversando em silêncio.

Como nos olhávamos e tudo que era para ser dito, era dito.

Como ríamos encharcados por ter não ter chegado antes do temporal em casa.

E como tínhamos satisfação, pelo simples fato de estar lado a lado. Sei, é impossível eu ter sentido tudo aquilo sozinho.
Depois desse segundo que se passou, ela lentamente se levantou e foi em direção ao portão da sua casa.

Ficou ali parada por alguns instantes procurando a chave em sua bolsa.

O suficiente, dentro das circunstâncias, para mim suspirar e admira-la pela última vez.

Tenho guardado até hoje, a parte que ela deixou comigo.

Um dia, eu vou devolver e retomar o pedaço que falta em mim.

[Vinicius Aguiar]

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Há muito fora do lugar, mais fora q dentro de mim,
ouso dizer
Por isso escarneço e solto o verbo
E tento escutar os gritos à minha volta
Principalmente os meus próprios gritos, q são sempre os mais ensurdecedores.
A gente só quer se eximir da culpa
A gente, secretamente,
só pensa em si mesmo
A gente finge altruísmo,
mas é pra parecer melhor,
maior q o outro.
Que bicho estranho o bicho homem
Tentando se esquivar dos instintos
Animais, reais,
latentes instintos de sobrevivência
E filosofando pra parecer alado
pra ter aparência de ser superior
pra, no final das contas
se assemelhar a Deus
se sentir um pouco mais sagrado
se sentir maior
se, se, a si,
para si mesmo
Para ter o maior pedaço
de bolo, de reconhecimento
do que for, mas ter mais q o outro

[b]O Amor não
O Amor, e por isso é raro,
quer o bem do outro sem retorno
O Amor dá luz sem esperar de volta
Até porque dar luz ilumina imediatamente
e prescinde, por isso mesmo, de retorno
Quem dá luz é pq está iluminado
Quem ama mesmo é pq já foi amado
é porque é amor em si
Mas é muito difícil
pq, no final das contas,
Ate mesmo o amor
Tem suas esperanças
cobranças, expectativas,
seu: ''se sou amado,
o outro vai ceder por mim,
vai me dar a vez’’
Há muito amor verdadeiro
eu sei, recebo e dou
mas pouco dele permeia
as relações que tenho observado
Um quer algo do outro
quer pertencer e ser dono
quer ser o mais importante de todos, mesmo q pra um só
E ás vezes
quer ver o outro doer
pra só assim ter um mínimo
de sensação de ser realmente amado. [/b]

Nossa geração é sobrevivente
eu já dizia isso quando tinha 10 anos. Sobrevivemos aos pós-hippies, às separações dos nossos pais, às permanências
- que podem ser muito mais devastadoras q as separações -
Sobrevivemos ao bug do milênio,
ao ano 2000...

À tanta coisa sobrevivemos
que não se pode cobrar muito de corações, despedaçados, defeituosos, desamparados
e, por isso, somos egoístas pra cara%$@
Muito egoístas!

E se o outro não chega pros seus sonhos
vc descarta, vc diz q não serve,
resolve até pelo telefone se puder...
''...espera, a outra linha tá tocando, só um minutinho, te deixo na espera, já falo contigo...’’

Lembro o tempo q havia mais respeito
Foco
Hoje vc fala com 30 no msn e mais um no telefone, e não alimenta com 1/30 de atenção
cada um desses
Nossa época é a do ''se vira aí''
Do ''cada um com seus problemas''

Tenho um sonho surrealista recorrente
É uma rua colorida demais q vai ficando preto & branco

Tem um cadáver no passeio
e as pessoas passam por cima,
sentam no defunto, apagam cigarro nele, mas ninguém nota
Eu estou sentado do outro lado da rua, choro copiosamente, em desespero, grito, tento avisar, mas ninguém ouve
O mundo segue impassível
Meu desespero é enorme
e qdo acho q vou sucumbir
percebo q tb estou sentado
sobre um cadáver
e percebo tb, distante, algumas pessoas gritando e tentando me avisar...

Há muito fora do lugar, mais fora q dentro de mim,
ouso dizer
Por isso escarneço e solto o verbo
E tento escutar os gritos à minha volta
Principalmente os meus próprios gritos, q são sempre os mais ensurdecedores.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Agente se acostuma

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009


PENSAR É TRANSGREDIR

Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos. Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim.Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido. Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo. Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!” O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação. Sem ter programado, a gente pára pra pensar. Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se. Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida. Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar. Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo. Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos. Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada. Parece fácil: “escrever a respeito das coisas é fácil”, já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado. Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança. Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade. Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for. E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009


Mais uma de amor


Que algumas pessoas não acreditem que o homem esteve mesmo na lua, dá até pra entender, mas tem gente que não acredita em amor, e isso é imperdoável. Podemos não acreditar no que nossos olhos vêem, mas não podemos desacreditar no que sentimos. Você já ficou com a boca seca diante de uma pessoa? Já teve receio de ela estar ouvindo as batidas do seu coração? Bem, isso tudo não é prova de amor, apenas de ansiedade. Amor é outra coisa.
Amor é quando você acha que a pessoa com quem você se relacionava era egoísta, possessiva e infantilóide e isso não reduz em nada a sua saudade, não impede que a coisa que você mais gostaria neste
instante é de estar tocando os cabelos daquela egoísta, possessiva e infantilóide.
Amor é quando você não compreende direito algumas coisas, mesmo tendo o QI mais elevado da turma, mesmo dominando o pensamento de Sócrates, Plutão e Nietzche. Perguntas simples ficam sem resposta, como por exemplo: como é que eu, sendo tão boa gente, tão honesto e com um coração tão grande, não consigo fazê-la perceber que ela seria a pessoa mais feliz do mundo ao meu lado?
Amor é quando você passa dias sem ver quem você ama, depois passam-se meses, e aí você conhece outra pessoa e passam-se décadas, e você já nem lembra mais do passado, e um dia qualquer de um ano qualquer você se olha no espelho e pensa: como é que eu consegui enganar a mim mesmo durante todo esse tempo?
Amor é quando você sente que seria capaz de amarrar o cadarço de um tênis com uma única mão ou de fazer a chuva parar só com a força do pensamento caso a pessoa que você ama lhe mandasse um sim deste tamanho.
Amor é quando você sabe tintim por tintim as razões que impedem o seu relacionamento de dar certo, é quando você tem certeza de que seriam muito infelizes juntos, é quando você não tem a menor esperança de um milagre acontecer, e essa sensatez toda não impede de fazê-lo chorar escondido quando ouve uma música careta que lembra os seus 14 anos, quando você acreditava em milagres.
Tudo isso pode parecer uma grande dor, mas é uma grande dádiva, porque a existência do amor está toda hora sendo lembrada. Dor é quando a gente está numa relação tão fácil, tão automática, tão prática e funcional que a gente até esquece que também é amor.

Martha Medeiros

quinta-feira, 13 de agosto de 2009


Sempre precisei. De um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou. Só sei do que não gosto...
E nesses dias tão estranhos
Fica a poeira. Se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo. O que é demais. Nunca é o bastante
E a primeira vez. É sempre a última chance. Ninguém vê onde chegamos
Os assassinos estão livres. Nós não estamos...
Vamos sair!Mas não temos mais dinheiro. Os meus amigos todos. Estão procurando emprego...
Voltamos a viver. Como há dez anos atrás. E a cada hora que passa. Envelhecemos dez semanas...
(...)Quando me vi. Tendo de viver. Comigo apenas. E com o mundo.
Você me veio como um sonho bom
E me assustei. Não sou perfeito...
Eu não esqueço. A riqueza que nós temos. Ninguém consegue perceber.

sábado, 8 de agosto de 2009

Antes que elas cresçam

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
É que as crianças crescem.
Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença.
Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular.
Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.
Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.
Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.
Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu?
Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?
Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil.
E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura.
Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.
Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas.
E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções.
Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa.
Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas.
Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.
Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas.
Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.
Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.
No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas.
Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis.
Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados.
Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos.
Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.
O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição.
Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

Affonso Romano de Sant'Anna

domingo, 19 de julho de 2009


“As pessoas ficam procurando o amor como solução para todos os seus problemas quando, na realidade, o amor é a recompensa por você ter resolvido os seus problemas."

Normam Mailer.

Copiem. Decorem. Aprendam.

Temos a mania de achar que o amor é algo que se busca.

Buscamos o amor nos bares, buscamos o amor na internet, buscamos o amor na parada de ônibus. Como num jogo de esconde-esconde, procuramos pelo amor que está oculto dentro das boates, nas salas de aula, nas platéias dos teatros.

Ele certamente está por ali, você quase pode sentir seu cheiro, precisa apenas descobri-lo e agarrá-lo o mais rápido possível, pois só o amor constrói, só o amor salva, só o amor traz felicidade..

Amor não é medicamento. Se você está deprimido, histérico ou ansioso demais, o amor não se aproximará, e, caso o faça, vai frustrar sua expectativa, porque o amor quer ser recebido com saúde e leveza, ele não suporta a idéia de ser ingerido de quatro em quatro horas, como um antibiótico para combater as bactérias da solidão e da falta de auto-estima.

Você já ouviu muitas vezes alguém dizer: "Quando eu menos esperava, quando eu havia desistido de procurar, o amor apareceu"..

Claro, o amor não é bobo, quer ser bem tratado, por isso escolhe as pessoas que, antes de tudo, tratam bem de si mesmas.

“As pessoas ficam procurando o amor como solução para todos os seus problemas quando, na realidade, o amor é a recompensa por você ter resolvido os seus problemas”.

Norman Mailer .

Divulguem. Repitam. Convençam-se..

O amor, ao contrário do que se pensa, não tem de vir antes de tudo: antes de estabilizar a carreira profissional, antes de fazer amigos, de viajar pelo mundo, de curtir a vida.

Ele não é uma garantia de que, a partir de seu surgimento, tudo o mais dará certo.

Queremos o amor como pré-requisito para o sucesso nos outros setores, quando, na verdade, o amor espera primeiro você ser feliz para só então surgir, sem máscara e sem fantasia. É esta a condição. É pegar ou largar. Para quem acha que isso é chantagem, arrisco-me a sair em defesa do amor: ser feliz é uma exigência razoável, e não é tarefa tão complicada..

Felizes são aqueles que aprendem a administrar seus conflitos, que aceitam suas oscilações de humor, que dão o melhor de si e não se auto-flagelam por causa dos erros que cometem. Felicidade é serenidade.

Não tem nada a ver com piscinas, carros e muito menos com príncipe encantados.

O amor é o prêmio para quem relaxa..


Martha Medeiros

sábado, 18 de julho de 2009



''Todo mundo 'pensando' em deixar um planeta melhor para nossos filhos...
Quando é que 'pensarão' em deixar filhos melhores para o nosso planeta?''


quinta-feira, 16 de julho de 2009


Deixamos pra depois uma conversa amiga

Que fosse para o bem, que fosse uma saí­da

Deixamos pra depois a troca de carinho

Deixamos que a rotina fosse nosso caminho

Deixamos pra depois a busca de abrigo

Deixamos de nos ver fazendo algum sentido


Amanhã ou depois, tanto faz se depois

For nunca mais... nunca mais


Deixamos de sentir o que a gente sentia

Que trazia cor ao nosso dia a dia

Deixamos de dizer o que a gente dizia

Deixamos de levar em conta a alegria

Deixamos escapar por entre nossos dedos

A chance de manter unidas as nossas vidas


Amanhã ou depois, tanto faz se depois

For nunca mais... nunca mais

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos
e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de
todas as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma
a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece
o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado
porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho
porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números
para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar
nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra,dos números, da longa duração.


A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone:
hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso
de volta.A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com
que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas
e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido,
desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar
condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potáve.
À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma
a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a
hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio,
a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia
está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar
a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos,
para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.Que aos poucos se gasta,
e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

sábado, 11 de julho de 2009


Está apaixonada, e – incrédula – descobre que é correspondida
Isso que parece hoje tão simplório olhado de fora dava-lhe um senso de plenitude e poder que nunca mais conheceria.
Não precisava de mais nada.
Nem Deus pode tirar isso de mim, pensava.
Um inocente beijo diante da porta da casa, e o vestíbulo transforma-se em céu
Por muito tempo ficará transfigurada por essa intimidade.
Por mais experiências que venha a ter como mulher, o momento não se repetirá, e dificilmente se paga.
Nunca mais haverá uma primeira vez, nunca mais a mesma candura de acreditar que tudo aquilo era eterno.
Foram-se os amores que tive ou me tiveram: partiram num cortejo silencioso e iluminado.
O tempo me ensinou a não acreditar demais na morte nem desistir da vida: cultivo alegrias num jardim onde estamos eu, os sonhos idos, os velhos amores e seus segredos.
E a esperança – que retrilha como pedrinhas de cores entre as raízes

– Lya Luft

quarta-feira, 8 de julho de 2009


"Durante algum tempo fiz coisas antigas como chorar e sentir saudade da maneira mais humana possível: fiz coisas antigas e humanas como se elas me solucionassem. Não solucionaram."
Caio F. de Abreu

terça-feira, 7 de julho de 2009

“Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.”
- Caio Fernando Abreu -
É uma verdadeira luta para estar presente, sempre me senti pressionado pela urgência de comunicar meus sentimentos, para que ninguém se esqueça que existo… Acho que tudo isso tem a ver com um problema de inquietude, com o fato de ter de sobreviver de qualquer maneira e reagir a um profundo sentimento de inadequação. Experimento continuamente a exigência de fazer qualquer coisa de novo para ser mais bem aceito.”

- Abbas Kiarostami

domingo, 21 de junho de 2009

Pode acontecer a qualquer hora do dia, de qualquer dia.
Numa sexta-feira às 17h20m de uma tarde nublada. Você decide que não quer mais fazer o que faz, que precisa trocar de profissão ou trocar de país mas lembra que pra isso precisa de uma grana que não tem, o sonho de repente fica distante mas a angústia segue brutal, e então a solução: o telefone.
Você liga pra pessoa que mais conhece você, que melhor decifra suas neuroses, e não é sua mãe nem seu psiquiatra: é ele.
Aquela pessoa a quem você chama intimamente de amor.
Do outro lado da linha, o seu amor ouve pacientemente toda sua narrativa turbulenta e irracional, dá uma risada que não é de deboche e sim de quem já viu/ouviu essa cena duas mil vezes e diz: daqui a pouco eu tô aí e a gente conversa sobre isso.
Daqui a pouco passa rápido e ele chega.
Você não está mais pensando exatamente aquilo que estava pensando antes.
Aquilo evoluiu para um diagnóstico emocional torturante: você não vai mais trocar de emprego nem de país, simplesmente porque descobriu que é uma pessoa instável, maluca e com fraquezas que se revelam no meio de uma tarde nublada, e que sendo assim é melhor ficar onde está.
Mas chora. Não vai perder esta oportunidade. Seu amor lhe dá um abraço de urso, faz estalar sua terceira e quarta vértebras e fala que bom que você não vai embora, então que tal um cinema pra comemorar?
Ao se olhar no espelho você se depara com uma mulher seis anos mais velha e 750ml de lágrimas mais inchada, mas antes que comece a chorar de novo, ele diz: tá linda. Vamos nessa.
O filme termina e você quer conversar. Mais calma, conta pra ele como é difícil pra você manter suas escolhas, que às vezes você gostaria de experimentar sensações novas mas é complicado abrir mão do conhecido em favor do desconhecido e, olha, juro, dessa vez não é TPM. Então ele diz que também sente isso às vezes, dá um puta beijo nela e, olhando bem no seu olho, diz: é TPM, sim, mas não tem importância. Amor não é mais do que isso.

MARTHA MEDEIROS

quarta-feira, 3 de junho de 2009

- The Next Time Around -

São muitos objetivos
para medir o seu valor,
para buscar seu peso em ouro

Sentado na solteira de marfim,
quanto mais longe você olha,
mais longe você estará.

Não é o suficiente definir os termos.
Se nada é arriscado, não se consegue nada
Apesar das probabilidades estarem contra,

em tempo, eu pertencerei a você.
É como deve ser.

Acomodado em você mesmo.
Varrendo poeira das pedras
Com uma carta para casa.

Volte para onde as horas são longas.
A simplicidade das coisas é prazerosa
se apenas observar, à vontade.


Não basta definir os termos.
Se nada é arriscado, não se ganha nada.
Sempre foi assim.

E onde a sorte há de te levar
Saiba, o caminho é o fim, mais que chegar
E queira o dia ser gentil
À tua mão aberta pra quem é

Em tempo, eu pertencerei a você.
É assim que deve ser,
e é como sempre foi.


- Little Joy -

domingo, 31 de maio de 2009

Só de Sacanagem

Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.
Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."
Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!

by; Elisa Lucinda

sábado, 30 de maio de 2009

Tempos Modernos - Lulu Santos

Eu vejo a vida
Melhor no futuro
Eu vejo isso
Por cima de um muro
De hipocrisia
Que insiste
Em nos rodear...

Eu vejo a vida
Mais clara e farta
Repleta de toda
Satisfação
Que se tem direito
Do firmamento ao chão...

Eu quero crer
No amor numa boa
Que isso valha
Pra qualquer pessoa
Que realizar, a força
Que tem uma paixão...

Eu vejo um novo
Começo de era
De gente fina
Elegante e sincera
Com habilidade
Pra dizer mais sim
Do que não, não, não...

Hoje o tempo voa amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
Não há tempo
Que volte amor
Vamos viver tudo
Que há pra viver
Vamos nos permitir...

Eu quero crer
No amor numa boa
Que isso valha
Pra qualquer pessoa
Que realizar, a força
Que tem uma paixão...

Eu vejo um novo
Começo de era
De gente fina
Elegante e sincera
Com habilidade
Pra dizer mais sim
Do que não...

Hoje o tempo voa amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
E não há tempo
Que volte amor
Vamos viver tudo
Que há prá viver
Vamos nos permitir...

E não há tempo
Que volte amor
Vamos viver tudo
Que há pra viver
Vamos nos permitir...


terça-feira, 26 de maio de 2009

Que bando de artistas somo nós.

A utopia de um mundo sem regras, onde todos agissem pelo instinto, virou o playground dos meus neurônios.
Cansei do normal, quero fugir do estabelecido, do programado, daqueles que aplaudem cada ato bem pensado.
O mais engraçado disso é que eu vou parar de digitar esse texto, vou botar o meu pijama, escovar os dentes, colocar o relógio para despertar e dormir. E acordar no outro dia, escovar os dentes, vestir um casaco, trabalhar e conviver em sociedade com harmonia e educação, e ninguém perceberá a erupção que tento conter.
E o nosso lado serial Killer, marylin monroe, al capone, simone de beauvoir?
Para onde vai tudo que a gente pensa e reprime, tudo que a gente ouve e estoca, tudo que a gente lê e compreende, tudo que agente vê e não toca?
Para onde vão as idéias que a gente consome e os sentimentos que nos envergonham? Vida interior.
Nem mil anos bastariam para eu assimilar tudo o que sinto e acomodar toda essa trupe em mim.

sexta-feira, 22 de maio de 2009


(...)
''Você me pergunta qual é a minha dor e isso me paralisa. Não sou cleptomaníaca, viciada em drogas ou autodestrutiva, não tenho pânico noturno nem diurno, não ando nem mesmo triste. Mas a angústia existencial, se não é uma coisa triste tão pouco é libertadora.
Não tenho medo de perder o senso. Eu tenho medo é desta eterna vigilância interior, tenho medo do que me impede de falhar''.
Martha Medeiros

quarta-feira, 20 de maio de 2009

"Fecho o livro, sorrio um sorriso compreensivo, bem-educado, discreto, tolerante — é, eu sou assim quase o tempo todo, compreensiva, bem-educada, discreta, tolerante."
(...)
mas como todas as pessoas, eu também tenho o meu limite,
chega uma hora em que o cópo transborda.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

'Pertencia àquela espécie de gente que mergulha nas coisas às vezes sem saber por que, não sei se na esperança de decifrá-las ou se apenas pelo prazer de mergulhar. Essas são as escolhidas — as que vão ao fundo, ainda que fiquem por lá.'

CFA.

domingo, 17 de maio de 2009


"Não, ela não era tola. Mas como quem não desiste de anjos, fadas, cegonhas com bebês, ilhas gregas e happy ends cinderelescos, ela queria acreditar."

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Como em particular, acredito que você é dotado de bom caráter e expressa uma confiança encantadora em mim.
Sentir vontade de desabafar através desse singelo e talvez triste texto.
Às vezes, é como se eu estivesse sozinha no mundo e que as coisas se movessem de lugar constantemente, e que milhares de pensamentos estranhos e difusos, mas também em alguns momentos dissipáveis, se mostrassem com freqüência.
Aparenta diversas vezes um sofrimento sem sentido e sem começo, meio e fim… ele chega sem que eu percebesse, e vai embora sem que eu pergunte, o porque?.
As pessoas que eu amo sempre estão longe dos meus olhos e distantes dos meu abraços e afagos. Todos os dias sinto vontade de me transformar em uma borboleta e visitá-las diariamente, eu me contentaria em somente vê-las, pois não teria como abraçá-las, tenho ao lado do coração, uma enorme cestinha, cheia até a tampa, de saudades.
Sei que sou super carente de atenção e carinho, talvez seja por este fato que sempre quero está presente na vida das pessoas, e faço com que as percebam que podem sempre contar comigo, lhes dou muita atenção e sou muito cordial.
Hoje mesmo é um desses dias que parece que as coisas estão mesmo fora de seus devidos lugares, sinto uma tristeza que inunda minha alma e deixa meu coração aflito. Nesses dias tenho desejos de ser mais, muito mais…do tipo, que sai e deixa tudo se misturar e não volta para consertar.
Hoje é um daqueles dias que eu escuto uma boa música melancólica e choro muito, e tento fingir que as coisas voltaram para seus lugares…( é até legal mostrar uma carinha alegre para suas companheiras de moradia, para não deixá-las com uma interrogação na cabeça).
Não seria eu, neste momento, se não estivesse digitando isso.
Sempre que estou triste, eu sento…e escrevo…escrevo muito…mas, muito mesmo.
Sinto que as pessoas que dou mais atenção, não expressa com reciprocidade tamanha atenção e afeto; infelizmente isso ainda me machuca.
Tem dias que desejaria ser despreocupada, e viver os meus dias sem importar-me com os desafetos. Mas não, isso não seria eu.

“olhando o quarto, entre os cabelos caídos sobre o rosto, ela procura os comprimidos.
pelas gavetas. nos armários. descalça, pés pretos, ela agora desobedece. contraria a infância higienizada e protegida. a meninice desinfetada. de chãos limpos. pisos brilhantes. cheiro de pinho.
A vida de regras. de pode-não-pode. de coisas proibidas. a vida de nãos. não solte as tranças. não fale com estranhos. fique longe das tomadas. não deixe comida no prato. não suje o vestido. não fale palavrão. não caia do balanço. não ouça música alta. leia apenas os clássicos. não bata no seu irmão. só coma coisas verdes. não trepe sem casamento. não use drogas. não responda seus pais. respeite seus professores. não beba gelado. não saia sem blusa. não tome o sol do meio-dia. faça o dever de casa. não grite com sua mãe. não coma porcarias. cumprimente seus tios. não ponha a mão na boca. não aceite carona. esqueça que há vida de madrugada. não mostre a língua. não deixe a camisinha. não fale de boca cheia. não durma até tarde. não aponte. não chore. não tome remédios sem receita. não mais que um comprimido. não mais que dois. três. quatro. não mais que dez. não vomite sobre o tapete. não morra. idiota, não morra.”

Eduardo Baszczyn



quinta-feira, 14 de maio de 2009

Para manter-me vivo, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo.
E, desse jeito, começar uma nova história que, desta vez sim, seria totalmente verdadeira, mesmo sendo completamente mentira.
Fico cansado do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite, sozinho neste apartamento no meio de uma cidade escassa de dragões, repito e repito este meu confuso aprendizado para a criança-eu-mesmo sentada aflita e com frio nos joelhos do sereno velho-eu-mesmo:
- Dorme, só existe o sonho.
Dorme, meu filho. Que seja doce. Não, isso também não é verdade.

[ Caio F. Abreu ]

x.x

Altenar momentos de extrema alegria com outros de angustia pura e é assim que vivo.
Com um vento que venta dentro do peito.
Com um brilho que vaga no fundo dos olhos.
Respirar a fumaça escura da esperança que arde em chamas entre as margens do rio e o céu me intoxica.
Detesto ver as cortinas desabando aos meus pés.
Ser parte da engrenagem. A liberdade que existe entre o espelho e eu.
Falsa, indecente, imoral, necessária.
A prisão que se tornou viver entre minha fábula e a vida real que jorra pelas janelas.
O gosto torpe do amor e o azedo do ódio que habito em veias chulas, eis que me vejo em meio a um turbilhão de sorrisos, mas não sei sorrir.
Eis que me vejo radiante apregoado com os pés no chão fingindo que quero voar e não sei voar.
Não sei pra onde iria se soubesse.
Só durmo quando imagino que estou voando.
Alternar momentos de certezas com outros de confusão é a duvida entre a culpa e a paranóia.
O certo no jogo de dados. O sim quando deveria ser o não.
O prêmio frustado, o acaso do acaso, a ressaca, a luxúria, a volúpiae o desamparo amargo no reflexo do copo de leite.
Fugir pra onde pode ser encontrado.
Ver e fingir não ter visto é um risco meramente calculado.
Alternar mentira e solidão. Pois ambas anulam-se entre si.
Medo e desejo. Prática e memória. Repressão.
Repressão do amãgo do ãmago.
Apenas repressão.
O que penso de mim quando penso o que pensam de mim?
O que penso de mim quando exponho apenas o avesso?